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O Real e a História no Teatro


A peça Tekoha – Ritual de vida e morte do deus pequeno, do grupo Teatro Imaginário Maracangalha, de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, conta a história do assassinato do líder guarani Marçal de Souza em 1983, episódio recorrente da violência de estado contra grupos sociais marginalizados. Em uma praça, o grupo reúne os espectadores em círculo, fazendo alusão à dinâmica de uma assembleia. Os atores apresentam de início o seu posicionamento político, colocando-se contra a repressão policial e a favor da manifestação do povo que luta pelos seus direitos. 

Ao contar a história de Marçal de Souza, o grupo revela o quanto a Igreja e a Justiça foram responsáveis pelo curso dos acontecimentos. A peça sublinha a sua intenção de se colocar em defesa daqueles que costumam ter suas vozes caladas à força quando chama a atenção para o fato de que Marçal, que foi morto a tiros, levou um tiro na boca. A enunciação de várias manchetes de jornal que relatam crimes como este e ainda outros, como agressões homofóbicas e atitudes autoritárias de administrações públicas, tem forte carga de denúncia. Colocando lado a lado diferentes notícias de violência, a peça nos convida a ver que não se tratam de casos isolados, mas de um projeto de extermínio e opressão de uma parte da sociedade, que ecoa uma continuidade do projeto colonizatório. Em determinado momento da peça, uma das atrizes nos lembra de que não há  "descobrimento" do Brasil, que o continente americano foi invadido e saqueado. 

Sem dúvida, a proposta do espetáculo – que em nenhum momento fica em cima do muro – é relevante e os artistas se dedicam à comunicabilidade de um modo generoso. É de grande valor a escolha por falar da história do Brasil em praça pública, e a decisão de falar da condição indígena, do contínuo massacre que exterminou e continua exterminando tribos inteiras, é sempre urgente e necessária. 

Nos últimos anos, temos visto diversos espetáculos que podemos situar dentro do que se tem chamado "teatros do real". Artistas de diferentes partes do mundo têm assumido a responsabilidade pela produção de pensamento sobre processos históricos, apontando formas diversas de dar continuidade à ideia de teatro documentário que conhecemos principalmente pelo legado do dramaturgo alemão Peter Weiss. A pesquisadora estadounidense Carol Martin, que tem importantes livros publicados sobre o assunto, fala que esse tipo de teatro contemporâneo está "encenando historiografia". As peças que encenam historiografia nos mostram diferentes noções de escrita da história. Algumas são mais complexas, não se prendem à dinâmica das narrativas causais, lançando mão de dispositivos ficcionais que tensionam a expectativa de verdade que temos dos discursos historiográficos oficiais. Outras seguem mais à risca a noção de história entendida como relação de nomes, datas e anedotas, sem ousar na linguagem. 

Tekoha está mais próximo do segundo caso, pois a dramaturgia (assinada coletivamente pelo grupo) se pauta por uma dinâmica simples de alternar momentos de narração, em que o elenco se dirige diretamente ao público, e de dramatização, em que os atores e atrizes se caracterizam como personagens da história narrada e dialogam entre si. Podemos dizer que a dramaturgia de Tekoha é mais didática, que aposta mais na informação transmitida do que no engajamento intelectual e afetivo do espectador. 

Ao final da apresentação, os artistas esclarecem que não estão fazendo a peça para comover, mas para mobilizar, o que mostra um posicionamento ético definido. De fato, a peça não espetaculariza a morte de Marçal de Souza. Há na dramaturgia, o que poderíamos chamar de ética do cuidado, uma expressão usada pelo pesquisador espanhol José A. Sánchez na lida com as práticas do real no teatro contemporâneo. 

A programação de 2017 do Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto traz outros espetáculos que podem ser pensados como teatros do real, ou até como formas contemporâneas – nada cânonicas – de teatro documentário;  ou ainda espetáculos que de algum modo agenciam produção e transmissão de saber, que estão comprometidos com o mundo em que vivemos. Jacy, peça do Grupo Carmin, de Natal, também trata, embora indiretamente, da história do Brasil. O Mapa Teatro, da Colômbia, veio apresentar Los Incontados – Um tríptico, a última parte de uma trilogia que reflete sobre a violência na Colômbia. Projeto brasil articula discursos, imagens de corpos e canções que são ou podem ser formadores de uma ideia complexa de Brasil. Na Cena Rio Preto, a peça da Cia Cênica, Terra Abaixo Rio Acima, que tem mais afinidades de linguagem com Tekoha, se propõe a contar parte da história da formação da cidade. São diferentes formas de investigar a linguagem do teatro e diferentes formas de engajar o espectador na reflexão que está sendo proposta. 

A peça do grupo de Campo Grande poderia fazer um convite mais contundente à desobediência civil se experimentasse, no espetáculo, mais desobediência às convenções do teatro. 

Por Daniele Avila Small (RJ) 
Doutoranda em Artes Cênicas pela UNIRIO, crítica, dramaturga e diretora de teatro. Idealizadora e editora da revista eletrônica Questão de Crítica, integrante do coletivo Complexo Duplo e da DocumentaCena – Plataforma de Crítica.


Fotos: Danilo Vieira