Durante a mesa Curadoria FIT 2026: Um olhar horizontal, a palavra desassossego me chamou a atenção. A perspectiva de uma experiência não necessariamente confortável diante de obras na programação deste Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto surgir como algo quase que ensejado pelas escolhas curatoriais é um caminho interessante para organizar nossas próprias experiências. Adriane Gomes, da curadoria desta edição, brincou, enquanto segurava a programação na mão: “não sei se vocês tem que gostar – mas assistam!”. Há alguns anos, lembro de escutar Chico Pelúcio, do Galpão Cine Horto (Belo Horizonte/MG) falar sobre cenas para “acalmar ou acordar a alma”. Por vezes queremos que as artes da cena nos acolham; em outras, queremos que elas nos mobilizem.
Talvez seja frutífero flanar pela programação do FIT considerando o que escreveu Rilke – “deixe tudo acontecer com você: beleza e terror. Apenas continue. Nenhum sentimento é definitivo”. Nestes primeiros quatro dias de festival, tanto já se pode viver entre a caixa preta, palcos montados e já desmontados à beira de uma represa, praças e calçadões, espaços ensolarados sob a sombra de um flamboyant… Além de todos os encontros que se dão em cafés da manhã, almoços, esquinas e Rolês. E nossa atenção flutua.
Enquanto na minha frente um senhor gargalhava nas cenas de palhaçaria de {FÉ}STA, dos Prot{agô}nistas (São Paulo/SP), uma mulher sentada atrás de mim se perguntava onde estava a graça. No meio de Proncovô (Belo Horizonte/MG), vejo uma folha seca caindo lentamente enquanto ela diz que tudo passa. Quando a dramaturgia sonora de Estou bem aqui e lembrei de você, do Em Bando Coletivo (Santos/SP), fala pela primeira vez a palavra avó, estou diante de três senhoras religiosas que olham curiosas para aquela pequena multidão caminhante. À frente da igreja de Schmitt, durante o badalar dos sinos um boi renasce no Aboio – Auto do Boi Cansado, da Panorando Cia. e Produtora (Manaus/AM). Na atividade formativa Conexões – “Entre Processos e Cenas: o Ofício Artístico”, alguém diz que no trabalho dos Núcleos de Artes Cênicas do SESI, “o processo são as pessoas”. Assim é, em boa parte, um festival: as pessoas. Que nestes últimos dias e nos que virão, estejamos todes com olhares atentos e porosos para uma fruição desassossegada.
Para este meu primeiro texto crítico em torno da programação e da vivência no FIT, tentarei organizar três lances sobre quatro dias, abordando espetáculos a partir de suas proposições formais e temáticas, buscando cerzir uma paisagem possível que segue em contínuo movimento dentro e fora de mim.
o público, a cidade; paisagens e travessia

Quando vi um palco construído na beira de uma represa, me emocionei. A cidade lotou o anfiteatro para a abertura do festival. Quando o elenco, totalmente preto, de {FÉ}STA caminhou em meio ao público para chegar ao palco, me emocionei de novo. O espetáculo do Coletivo Prot{agô}nistas se mostrou uma escolha acertada para começar o FIT 2026. Como diz o professor Luiz Antonio Simas, “a gente não faz festa porque a vida é fácil, mas pela razão inversa”. Fé, festa, festival: o pontapé inicial desta edição é um convite à construção de uma cultura de frestas para reencantar o mundo.
{FÉ}STA traz em sua dramaturgia elementos de denúncia e de memória; em meio aos números acrobáticos e aos risos da palhaçaria, a lembrança e afirmação de um legado colonial, escravocrata, racista, incrustado em nossa história e recriando-se a cada giro da engrenagem do capital. No entanto, a organização narrativa da encenação está toda a serviço do maravilhamento: o que emerge é a beleza do encontro, da técnica, da capacidade humana de criar imagens que beiram o inacreditável. Uma celebração das existências diaspóricas, do que se transforma em travessia; quase como uma revelação de um possível outro lado de cá. Ao final, um coro que se faz semelhante a quem está ao redor e canta a plenos pulmões: “só de revolta, vou ser feliz". Milhares de pessoas irmanaram-se naquele momento, entre palmas e vozes. São José do Rio Preto, por pouco mais de uma hora, foi outra. Hoje, aquele palco já foi desmontado. O que resta em nós – e o que resta na cidade?
Na manhã de sábado, a Praça Rui Barbosa foi o ponto de encontro inicial de Estou bem aqui e lembrei de você. O audiotour, uma caminhada coletiva acompanhada de dramaturgia sonora, convida o público a olhar ruas, calçadas, fachadas, pessoas, o chão, o céu, nossos passos e os passados de dentro e de fora. No fone de ouvido, a voz que narra pede que seja aberto o primeiro envelope do kit entregue pelo Em Bando Coletivo. Nele, um cartão postal que registra a mesma praça onde estamos. Vejo na fotografia uma fonte jorrando suas águas; viro meu corpo e vejo o concreto seco bem atrás de mim. Olhamos ao redor. Horas depois, descobrirei que a catedral de Rio Preto estava na minha frente e eu não a percebi naquele momento. O que vemos e o que deixamos de ver? Que marcas uma obra efêmera pode construir em uma cidade?

Enquanto vemos, somos vistos. Um bando que caminha junto chama a atenção de trabalhadores e passantes do centro da cidade. Um caminhar lento é ainda mais estranho. Um parar. Enquadramos, com molduras nas mãos, mas a todo momento somos enquadrados. A dramaturgia de Estou bem aqui e lembrei de você é a mesma, independente das ruas que são caminhadas, independente da cidade visitada, e lá está, de alguma forma, essa tentativa de fixar no instante esses retratos de ausências, do que já não é, do que já foi uma cidade, um bairro, uma quadra, uma relação.
O que é uma cidade, o que é uma cidade durante um festival internacional de teatro e o que é a cidade quando não há um festival internacional de teatro? O que fica na paisagem? Penso nos acasos entre a dramaturgia e a cidade e o que sempre esteve nelas. Memórias que se fazem entre o público que ouviu e o público que viu o público ouvindo, e aqueles quarteirões por alguns minutos foram outros – mas também não deixaram de ser o que já eram.
tradição e invenção: das formas de encenar encantaria

Há muita coisa que já existe. Há muito a se fazer com o que já existe. E com o que ainda não. O que veio antes nos constitui, de algum modo, por adesão ou recusa. Nosso Brasil, nossos brasis, brilham em culturas populares. Nos primeiros dias de FIT, tradição e invenção coexistiram nos mistérios e brincadeiras de encantarias. De formas radicalmente distintas, Bicho Alumbroso nas Entranhas do Encanto, da Trupe Motim de Teatro (Quixeré/CE), e Aboio – Auto do Boi Cansado, da Panorando (Manaus/AM), trouxeram seres, lendas, folguedos, ritos e festejos das culturas populares brasileiras para Rio Preto. Enquanto o Bicho Alumbroso é em si um múltiplo encantado-brincante em busca da própria identidade, o Aboio faz dos bois inspiração visual, narrativa e coreográfica – do Bumbá às Vaquejadas. Na Trupe Motim, Chico Henrique está em cena, vivendo-sendo o Bicho Alumbroso, manipulando bonecos (o Velho do Saco, a Matinta Pereira, entre outros), dialogando com vozes gravadas e construindo uma narrativa na direção do encontrar-se. Na Panorando, Ana Carol Nunes, Fábio Moura, Lidi Lopes, Miguel Campos, Talita Menezes e Reysson Brandão são gente-boi que dança, boi-boi que dança, vaqueiro, encantaria, payasos brincantes em um contar que não se faz nas palavras.
Observar os dois trabalhos em perspectiva, tendo eles linguagens e origens totalmente distintas, é rico para destacar alguns expedientes utilizados: a utilização de fontes da cultura popular – sendo elas mais próximas ou distantes das vivências dos grupos e artistas em questão – e as pesquisas formais que visam dar a ver as possibilidades de brincar com a tradição, compreendendo-a como estrutura entre a rigidez e a maleabilidade, como material de maravilhamento e também de crítica.
Bicho Alumbroso é todo feito de brincar e assustar; crianças se envolvem, se engajam, interagem e também fogem. Henrique não se preocupa em explicar cada ser evocado; interessa jogar com o mistério, com as referências que cada um traz e com as sensações provocadas pela cena em si. Tudo que se encontra chegou com ele, com ele-boi, numa chegança de quem tem mesmo muita bagagem, e a cada cena uma camada se desvela, o todo se desmonta para que um novo se apresente, até que o Boitatá esteja satisfeito – de gente do público que é comida torna-se sua cauda, mas também do tanto que a cena é alimento, entre medo e alegria.

Aboio traz em seu título a ideia de auto; a estrutura talvez se evidencie desse modo no terço final do trabalho, onde a conexão entre os episódios e figuras parece ser mais visível. Em jogos coreográficos que trabalham semelhança e diferença, o brincar e a violência se alternam na beleza das composições. Logo no início, uma voz artificial contextualiza o que virá: trata-se de “um tipo cênico que abriu mão do falar”, e as ações farão com que continuamente se pense “o que eu quero dizer com isso”. E então lá vem bois-tantos, entre o simbólico, o sagrado, o profano e o material, e lá estão complexidade, tradição, mistério, invenção, renascimento; brincar, rebrincar.
Nos dois trabalhos, algo do digital está contemplado. O Corpo-seco enfrentado pelo Bicho Alumbroso é Cyber, feito robótico, ressequido pelas telas de smartphones. A voz que inaugura Aboio está o mais longe possível do canto que nomeia a peça: uma voz sem alma, supostamente neutra, feita por inteligência artificial; é quase uma provocação, uma antítese da pulsão de vida que seguirá – mesmo quando se encenam códigos da morte.
Na programação do FIT, as duas obras fazem suas apresentações entre espaços mais centrais e outros descentralizados. Assisti à Bicho Alumbroso sob o flamboyant do SESI durante a noite, e fiquei pensando sobre como a obra deve se desenvolver em espaços de livre circulação – como na Cidade das Crianças, onde também pôde ser vista, ou no Núcleo Vila Azul, onde se verá nesta segunda (20) – com a presença não apenas de público espontâneo, mas também de público desavisado. Aboio estreou em Rio Preto na praça de Schmitt; o público presente parecia estar muito mais ligado ao festival do que ao território. Quais relações se constroem entre linguagens, expectativas e espaços? Qual a dimensão do teatro popular no escopo da programação de um festival? Como estamos olhando para obras que jogam de formas inventivas com a tradição? Que lugar – simbólico – estes trabalhos ocupam no nosso imaginário?
realidades como (des)organizadoras
Outro boi esteve nos palcos riopretenses nestes primeiros dias de FIT. Um boi sem festejo; um clone do Boi Bandido; um país feito de gado. Boi Material, novo trabalho da Companhia Cênica (São José do Rio Preto/SP), finca seu chão no contexto do grupo e do imaginário em torno dos interiores paulistas e brasileiros. Assisti ao trabalho em sua primeira apresentação, onde problemas técnicos infelizmente prejudicaram a encenação e sua fruição. Logo antes, havia (re)assistido Cena Ouro – Epide(r)mia depois de muitos anos e estarrecido com a morte de Cleiton Ferreira, o Dentinho, professor das ruas. Sobre o espetáculo da Cia Mungunzá (São Paulo/SP), escrevi uma crítica em outubro de 2023 chamada do que insiste, do que existe.

Trago as duas obras aqui neste texto não apenas por tê-las visto em sequência, mas porque ambas parecem fazer de suas realidades os princípios para a cena. Ambas carregam em suas cenas finais textos-proclamações muito similares.
Não falem por mim.
Não falem por nós.
É uma aposta nas relações entre interiores e exteriores. Para a Cênica, o interior enquanto região geográfica, marcador sociocultural, e enquanto subjetividades singulares. Para a Mungunzá, o exterior enquanto as ruas que se viam das paredes de vidro do Teatro de Contêiner – demolido pela prefeitura de São Paulo no início deste 2026 – e que invadiam a cena e as vidas de cada pessoa que ali frequenta(va). Dentro e fora e o que fazemos com a percepção indesviável da miséria dos tempos?
Para Cena Ouro, que se desfaça a poesia e que pedra seja pedra – mas que se siga fazendo, insistindo, existindo. Em Boi Material, uma ironia mordaz diante do que se vê e se faz do grupo, uma troça com a visão da capital, uma brincadeira com Agropeça – e aqui também se falarão dos muitos tempos em oito segundos – e a crise que se instaura em torno do trabalho da arte, do trabalho do artista. O grupo veste um branco-açougue, que é também um branco-desinfecção, e um branco-gado, e o avesso é a carne e esses desdobramentos parecem apontar para possibilidades de fabulações críticas extremamente complexas entre princípios éticos e condições materiais, entre a história da arte e a história dos pastos e paragens deste Brasil.
Se para a Mungunzá não cabe fábula, a Cênica aposta em construir um enquadramento para tecer suas críticas mais-que-diretas à realidade nacional, com referências explícitas e uma tentativa caricatural de fazer-se pastiche que resulta por vezes num estranho didatismo. Considerando a premissa de um grupo contratado por uma feira de exposição agropecuária, Boi Material parece que irá desdobrar-se nas contradições do ser-artista; do como se pode dizer o que se quer dizer em cada contexto. De devolver a acepção de gado a um plano crítico de classe, não como chiste a um campo político-ideológico. Um país de gados, sim, de peões, de trabalhadores cujo valor é menor do que o de lotes de pasto. Neste cenário, será que cabe ao artista ser meramente o arauto do apocalipse?

A realidade de Cena Ouro se manifesta como princípio desorganizador. A encenação é suja, metal bruto, composições que se borram, uma sucessão caótica de vidas e mortes, de desesperos, e de poesia, sim, porque ela insiste em estar ali. Para Boi Material, a realidade organiza a cena. É assim. Então, a história é contada. Essas são as trocas promíscuas entre os entes do Capital, e se houver um lugar a mesa talvez nem queiramos sentar. Na composição final, O Minotauro de Denilson Baniwa e uma coletividade que se senta como se estivesse em sua Última Ceia. Será que não somos, em alguma instância, simultaneamente o homem-boi flechado e a flecha disparada? E há algum redentor? Alguma redenção?
Não se trata de esperar da arte a solução para todas as crises, muito menos que um espetáculo de teatro responda definitivamente à séculos de exploração do homem pelo homem. Mas quais questões tem se levantado e ainda serão levantadas para nos mobilizar, acalentar, angustiar?
Quantas interrogações ainda irão nos desassossegar?
amilton de azevedo é pesquisador e crítico das artes vivas na plataforma ruína acesa (https://ruinaacesa.com.br). Atualmente, é doutorando em artes cênicas na ECA/USP. Mestre em artes da cena, especialista em direção teatral e bacharel em teatro pelo Célia Helena, onde lecionou. Constrói a URGIA/plataforma de ações da palavra. Colabora com diversos festivais, ministra oficinas de crítica e escreveu para a Folha de S. Paulo. Integra a seção brasileira da Associação Internacional de Críticos de Teatro e o júri paulistano do Prêmio Shell de Teatro.

