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FIT — Festival Internacional de Teatro
ruína acesa · Cobertura FIT 2026 · 25 Jul 2026

57 coisas de um milagre

Cinquenta e sete anos de FIT em cinquenta e sete tentativas: uma travessia pela edição 2026.

amilton de azevedo

Por amilton de azevedo

cinquenta e sete anos não são cinquenta e sete parágrafos, mas ainda assim, seguem cinquenta e sete tentativas. a história do FIT se faz em muitas dimensões e este texto arregimenta alguns acontecimentos desta edição 2026. algumas coisas já foram ditas em escritos anteriores, talvez de outro modo, talvez do mesmo jeito.

público de {FÉ}STA. foto: Victor Natureza
público de {FÉ}STA. foto: Victor Natureza

1. O Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto está inscrito na história da cidade, na história dos festivais de teatro do país, na história do teatro brasileiro. Cinquenta e sete anos significam gerações e gerações que pensam e pensaram, fazem e fizeram, frequentam e frequentaram, lembram e lembraram do(s) FIT(s); o final de cada edição é o devir de uma próxima. A cada ano, um novo FIT se faz, refaz, desfaz.

2. Não existe uma história única. Há o que se registra objetivamente e o que se pode mensurar, e há o tanto que escapa dos encontros, afetos, experiências. Observar o passado, a trajetória de um festival, é reconhecer – e lembrar – de sua dimensão: 57 anos, sendo 24 desde o caráter internacional. Rio Preto é pouso para os acontecimentos mais relevantes do teatro brasileiro há mais de cinco décadas. Ao mesmo tempo em que isso deve ser valorizado, é fundamental que não se esqueça que, diante das atuais configurações e crises sociais, nada está garantido e atenção e mobilização devem ser atos contínuos.

3. Durante a primeira palestra do Seminário FIT 2027: Uma Construção Coletiva, Fátima Martins, criadora do Alinhavando Redes, falou sobre uma necessidade fundamental para a articulação artístico-cultural: uma sensibilidade mútua, onde o território entende o poder público e o poder público entende o território. Sabemos, sim, que se trata de uma balança muitas vezes pouco equilibrada. Mas a perspectiva da sensibilidade parece realmente cara, sobretudo nos tempos que correm. Sejamos sensíveis, como as artes da cena podem nos convocar a ser.

4. Na beira da represa, um anfiteatro lotado para {FÉ}STA, dos Prot{agô}nistas, espetáculo de abertura desta FIT 2026. Isso me emociona. Antes do início, artistas do coletivo descem pelo meio do público; estamos ali, para ver e ser vistos, ouvir e ser ouvidos, rir e chorar juntes, celebrar. Ao longo dos dez dias, plateias lotadas, pessoas ávidas para ver teatros em suas diversas formas, linguagens, temáticas, arranjos, origens.

5. A equipe curatorial da edição pode compartilhar um pouco de seus processos na mesa Curadoria FIT 2026: Um olhar horizontal. Nela, realizada nos primeiros dias de FIT, muito do que foi dito pode ser verificado na prática: a relação dos grupos da cidade com o festival, a programação feita na diversidade – de presenças, olhares, estéticas –, o desassossegar que as artes da cena podem promover; obras que estão ali não para serem gostadas ou desgostadas, mas antes de tudo, vistas.

6. Porque, nas artes vivas – teatro, dança, performance, circo – é necessário estar ali. Estar presente. Se colocar diante da obra, ou dentro da obra, ou ladear-se à obra, ou caminhar com a obra, habitar a obra, ser parte dela; mas ali, naquele tempo, naquele espaço. De outro modo, certas coisas escapam.

7. Quando a Cia. Mungunzá chega com Cena Ouro – Epide(r)mia, além de colocar Rio Preto entre as duas cidades para além da capital que mais receberam trabalhos de seu repertório, ela traz também uma ausência, daquelas da ordem do imponderável: a primeira apresentação no FIT 2026 foi a primeira desde a morte de Cleiton Ferreira, o Dentinho, professor das ruas. Aquela coletividade em cena estava ali em luto, numa obra que é reflexo de muitas lutas, e que versa precisamente sobre existências que passam despercebidas aos olhos de grande parte da sociedade e do poder público, sobre corpos marcados para morrer sob o signo da necropolítica. As apresentações de Cena Ouro no FIT foram tragicamente históricas, do modo que ninguém desejava que fossem.

Cena Ouro - Epide(r)mia. foto: Milena Aurea
Cena Ouro - Epide(r)mia. foto: Milena Aurea

8. Durante o primeiro Boteco Crítico, com a presença de boa parte da Mungunzá e da Cena Ouro, falamos da obra, das realidades, de como se colocar diante de tantos fins, das crises que nos assolam, de vários assuntos que se atravessaram. No final, Leonardo Akio, integrante da companhia, fez uma mágica. Festival é encanto, mesmo quando habitamos o olho do furacão.

9. No mesmo palco do teatro Paulo Moura onde vimos a Mungunzá, Aziz Gual conduziu todo o público De Risa en Risa em uma das três atrações internacionais deste FIT. Números clássicos de palhaçaria, acompanhados de uma visível técnica de Gual – tanto na expressividade corporal e vocal quanto em habilidades circenses – que fizeram rir adultos e crianças. Encanto.

10. Também se pode pensar nas expectativas: quando falamos em obras internacionais, o que esperamos? Trabalhos de vanguarda? Diretores e grupos renomados? Nomes que caíram nas graças do circuito de festivais? Este FIT trouxe, além do palhaço mexicano supracitado, um performer palestino com uma obra de autoficcção e um grupo chileno que aposta na graciosidade das composições visuais (cabe dizer que não assisti a El Carnaval de los Animales). Também, na Mostra Internacional de Teatro Lambe-Lambe, caixas da Argentina, Bulgária, Chile e Espanha puderam ser vistas nesta linguagem genuinamente brasileira.

11. A presença internacional em um festival é para trazer o que aqui não há? Ou pode ser um espaço para o encontro do comum, em suas singulares abordagens? Vendo De Risa en Risa, lembrei-me de quando estive em outro festival no interior de São Paulo e fui um dos participantes de um número semelhante ao apresentado por Gual, onde quatro homens se sentam em bancos e apoiam-se uns nos outros e os bancos são retirados, com eles permanecendo em resistência até que caem. Uma tradição de palhaçaria que se estende para além de fronteiras e permanece viva, encantando, divertindo; e a presença de um palhaço como Gual traz não apenas este chão comum mas a riqueza no detalhe que habita a construção, as escolhas, o que se diz, onde se insiste, onde se passa ligeiro. De Risa en Risa celebra a possibilidade também de não se apressar na busca pelo novo, pelo inédito, e confiar na tradição, na técnica e na precisão. Ainda, num jogo de máscaras desenvolvido de forma impressionante, Gual vai em busca de se encontrar. Ao final, o palhaço se desfaz diante de nós.

De Risa en Risa. foto: Ricardo Boni
De Risa en Risa. foto: Ricardo Boni

12. Em O Sonho de Ícaro, diz Omelete (Ícaro Negroni): “palhaço não morre, não; no máximo, no máximo, perde a graça”.

13. Khalil Khalil, de Khalil Albatran e Bilal Alkhatib, talvez esteja mais próximo do que nos acostumamos a ver em festivais internacionais, no sentido de trazer temas candentes dos nossos tempos alinhados à linguagem que talvez seja a mais proeminente nas obras contemporâneas – a autoficção. É louvável a iniciativa de programar artistas da Palestina em 2026. Entre os aplausos, gritos de Free Palestine ecoavam. O trabalho de Albatran e Alkhatib não aborda diretamente os acontecimentos recentes; à sombra – e à luz – do irmão homônimo do artista, que foi martirizado durante a Primeira Intifada palestina, Khalil Khalil projeta documentos no corpo de Albatran, fazendo do performer o próprio documento. Tudo se organiza em cena como aparição, das nuvens feitas cenário às lentes de contato que fazem de Albatran fantasmagoria presente. Há algo de DIY nas estantes de partituras tortas, dois iPads de onde o artista soltará beats e samples, nos cabos enrolados sobre ele que chegarão ao microfone, no tocar da gaita… Albatran traz nesta investigação do passado uma busca de si, ele feito duplo, cindido, fraturado. E algo de profundamente contraditório evocado nas palavras da carta do pai.

14. Essa foto de Victor Natureza, feita com múltipla exposição, de Khalil Khalil, que me parece uma síntese do espetáculo:

Khalil Khalil. foto: Victor Natureza
Khalil Khalil. foto: Victor Natureza

15. Fotógrafos, videomakers, críticos: a produção da memória é também concreta, em imagem, vídeo, texto. Essas coisas servem para o registro, mas não só. Escolhas de enquadramentos, montagens e edições; as palavras, o pensamento, tudo revela algo a mais sobre o que foi um festival.

16. A produção do FIT 2026. Como público das obras e anfitrião do Boteco Crítico, pude acompanhar o tanto que somos acompanhados ao longo de dez dias. Produtores e técnicos, por toda parte, solícitos e atentos.

17. Como nem tudo são flores, também pude, como público, presenciar mais de uma vez mesas de iluminação com problemas, em espaços diferentes, de modo perceptível aos espectadores. Por vezes, questões sutis e contornáveis; em outras, gritantes.

18. Ao que não sabemos se é proposta, acaso, erro, confusão, novidade: um brinde às intenções artísticas e o que acontece para além delas.

19. Na cidade, falar do FIT com recepcionistas de hotel, motoristas de carros de aplicativo, atendentes em restaurantes e pessoas em geral era um misto de histórias e surpresas – “é óbvio que conheço o festival, só não sabia que já era hoje!”. Isso não é pouca coisa: Rio Preto reconhece a dimensão do FIT; mesmo quem não frequenta. Mas uns dois ou três motoristas me disseram que iam levar suas crianças em alguma programação.

20. O que é a cidade no FIT, e, talvez ainda algo a se pensar ainda mais, o que é a cidade sem o FIT? Não a ausência da realização do festival anual, mas os meses que habitam Rio Preto entre as edições. O que segue reverberando? Quais ações poderiam ser pensadas a longo prazo, de forma continuada, para alimentar a cena local, seus fazedores e públicos? Como pensar em políticas de Estado e não de governo; quais os diálogos possíveis? Continuidade é ouro para fugirmos da lógica capitalista e produtivista do evento cultural. Como a cultura é cultivada para além desses dez dias? Desejo parece não faltar para intercâmbios, seminários, encontros.

21. No Núcleo Alvorada, sob um intenso sol de julho, habitava ainda um imenso Papai Noel. Ladeado a ele, centenas de crianças amontoavam-se para Entre Causos e Lendas e O Segredo do Rei. Espero que aquele espaço receba muita arte o ano todo.

público de O Segredo do Rei e Entre Causos e Lendas. foto: Victor Natureza
público de O Segredo do Rei e Entre Causos e Lendas. foto: Victor Natureza

22. O CEU das Artes Aristides dos Santos não está no mapa. Literalmente. Quando fiz meu mapa pessoal de Rio Preto, só consegui salvar a rua onde ele se encontra, já que as informações apontam para o endereço “s/n”. Ao entrar na van para lá, o motorista comentou que também não sabia exatamente onde era – iria na direção daquela rua e aí, procurávamos. Bem, não foi difícil: é imenso.

23. O dia fechou, começou uma ventania, crianças chegando e chegando, chuva, cobrir equipamentos, mudar crianças de lugar, alguém escorrega de leve, ouço uma professora dizer que determinada aluna é muito carente e todo momento quer o abraço de alguém, logo antes de começar O Sonho de Ícaro uma criança me dá boa tarde e me cumprimenta com certa formalidade, outra diz que o ator é seu irmão, levo um tempo para entender que é uma piada e ela está me dizendo, rindo, que seu irmão é um palhaço, uma criança muito pequena aponta e diz “Omelete!”, o nome do palhaço, outras crianças também pequenas mas não tão pequenas acham fofo. A obra é incrível; falei dela em meu texto criar é criança. O CEU das Artes Aristides dos Santos definitivamente está no mapa.

24. Na praça central de Schmitt, o motorista da van, seu Miguel, me conta da doceria, me traz uns para experimentar, antes de voltarmos passarei por lá e voltarei para São Paulo com doces de abóbora e batata para minha mãe; os doces de sua infância, ela, criada em Cerquilho, em outro dos tantos interiores paulistas. Entre um badalar e outro do sino da igreja, um boi morria e renascia em Aboio – o Auto do Boi Cansado, do Panorando (Manaus/AM), na primeira apresentação do grupo fora de sua cidade natal. Circulações, os Brasis, o que podemos ver em um festival, o que o FIT nos proporciona de contatos com formas de fazer dos nortes, cujo custo afasta muitas vezes dos circuitos de arte.

25. Amazonas também se fez presente com seu Corpo de Dança trazendo o espetacular TA - Sobre ser Grande, onde floresta e cidade se encontram nas coreografias que se transformam com os tons de luz, os figurinos, as matrizes corpóreas; o ritual, o popular, o contemporâneo. Voguing e dubstep nos corpos tantos e na trilha executada ao vivo pelo DJ Marcos Tubarão. Dança e trajetória, o regional e o brasileiro.

TA - Sobre ser grande. foto: Milena Aurea
TA - Sobre ser grande. foto: Milena Aurea

26. Os Nortes e Nordestes, plurais em seus estados, em suas linguagens, em suas tradições e invenções. Amazonas, Ceará, Bahia. De Manaus, TA e Aboio, obras radicalmente distintas. O mesmo sobre o Ceará, representado pelo Teatro Máquina de Fortaleza e a Trupe Motim de Quixeré: dois trabalhos para todas as idades de matrizes totalmente diferentes. Não esperaríamos que dois espetáculos de São Paulo fossem ser semelhantes por criados na mesma cidade, mas ainda temos a tendência de diminuir outras regiões e seus artistas. O Norte é muita coisa. O Nordeste é muita coisa. Do Centro-Oeste, talvez conheçamos menos ainda.

27. Da Bahia, Akoko Lati Wa Ni – Tempo de ser, de Feira de Santana, e mais uma primeira vez. A Cia. Única, recentemente contemplada pelo Prêmio Shell na categoria Destaque Nacional (uma excelente iniciativa para lançar o olhar para além do eixo Rio-SP), faz sua primeira apresentação fora de seu estado natal. Teatro de Terreiro, sob a batuta da experiente Onisajé, referência nas artes cênicas brasileiras.

28. Do Sul, veio Instinto, do Coletivo Gompa (Rio Grande do Sul), também recentemente vencedor do Prêmio Shell: a Melhor Direção segundo o júri do Rio de Janeiro, onde o espetáculo cumpriu temporada. Ali, expedientes comuns ao teatro contemporâneo se organizam: o uso de microfones, uma performatividade narrativa, o documentário em informações e projeções, a recriação de clássicos (aqui, Brand, de Ibsen). Nas imagens de líderes, Gandhi e Thatcher estão na mesma sequência, assim como o ex-presidente de extrema direita de nosso país; escolhas e ausências – como construir o discurso e sustentar o contraditório, fazendo a reflexão do público ir além de certezas, deixando mais em aberto para cada pessoa na plateia?

29. Também do Sul veio Ilíada em Libras, uma parceria entre as paranaenses Cia. Ilíada de Homero e Fluindo Libras. Antes de mais nada: um espetáculo em Libras. Isso é histórico. A acessibilidade para ouvintes fica no cantinho, com a voz de Fernando Marés acompanhando a vigorosa interpretação de Jonatas Medeiros do primeiro canto do poema épico. Ao final, o ator comenta que “é uma guerra para mim e é uma guerra para vocês”; a fruição não é simples para um ouvinte – seja pelo denso texto de Homero, seja pela falta absoluta de hábito de ter no centro da cena uma linguagem de sinais. Foi incrível ver um grupo de surdos (talvez com algum ouvinte sinalizante entre eles) comentando a obra enquanto ela era apresentada. Talvez uma crítica deste trabalho deve ser feita por uma pessoa surda. Espero que um dia seja.

Ilíada em Libras. foto: Ricardo Boni
Ilíada em Libras. foto: Ricardo Boni

30. Um festival é a oportunidade perfeita para assistir espetáculos que não tem você como público-alvo. Olhar para essa possibilidade de frente, encarar a fruição da diferença. Isso também é encontro.

31. O Rolê do FIT. Se festival é encontro, que riqueza é um encontro que transcende o público dos teatros. Sim, o Rolê é um ponto de encontro para os frequentadores e participantes da programação do FIT, mas a impressão é que se trata de um mundo inteiro que se sente convocado por aquele espaço, aquelas atrações. E olhando ao redor, se percebem tantos nichos, tanta diversidade ali. É interessante a presença de performances no Rolê; o espaço como extensão da programação, as pontes possíveis entre festa e as artes vivas (não são poucas).

32. Nosso Boteco Crítico. No Rolê. A primeira noite, colados na porta que dá para a área externa; som alto, caos, pessoas se esgoelando entre elogios, afetos e discussões. Nas que seguiram, um espaço um pouco mais acusticamente confortável; ainda assim, para a próxima (vai ter próxima, né?!) será bacana repensar algumas estratégias, lugares, horários. Artistas presentes, públicos diversos se colocando a partir das experiências – de hoje, do ontem – no FIT, indo pra além do “gostei” ou “não gostei”, do bom ou ruim, do legal ou chato. Houve até quem nunca tinha ido a nenhum espetáculo do FIT que colou junto pra falar. Não é porque sou um dos botequeiros (e salve Fernando e Fredda, que tavam comigo em Rio Preto, e salve Guilherme Diniz e Heloisa Sousa, também autoras da nossa botecagem crítica), mas a construção destes espaços para trocas horizontais é riquíssimo na perspectiva dos compartilhamentos e aprofundamentos em torno das obras apresentadas. Coisa boa que os coordenadores deste FIT puderam acompanhar os papos; assim como a presença da curadoria é fantástica – no Boteco, todo mundo pode falar e todo mundo pode ouvir.

33. A presença da crítica – nesta edição, eu, Fernando e Fredda – subsidiada pelo festival é uma prática recorrente no país, muitas vezes questionada em torno desta relação meio complicada. É importante lembrar que hoje a crítica das artes da cena é feita de forma independente e na imensa maioria dos casos, voluntária por seus fazedores. A independência é rica pela liberdade que nos dá; mas é complexo não termos garantida uma dignidade profissional no nosso fazer. Então, sim, que sustentemos essas relações complicadas entre quem está remunerando estes profissionais e seus labores críticos. Enquanto as cartas estiverem na mesa de forma transparente, vamos lidando. Que festivais e instituições sigam compreendendo a importância da crítica e também, do lado deles, sigam sustentando o complicado. Que o nosso fazer se inscreva no debate público, também, afinal também temos responsabilidade sobre nossas palavras – e, gosto de acreditar, sobre o nosso teatro.

34. Um amigo disse, certa vez, que para ele “a crítica sempre chega atrasada”. Nosso exercício, neste FIT e como costuma ser em muitos festivais, foi estar caminhando junto do festival, dia a dia, chegando quase que ao mesmo tempo das obras. Talvez algo nos tenha escapado, talvez algo escrito não tenha sido bem recebido. Estamos aqui, abertos para a troca. E para as gafes, como quando no primeiro Boteco Crítico eu simplesmente confundi dois artistas de trabalhos diferentes.

35. Sobre o que chega atrasado, sigo pensando sobre diversas obras. Sobre o que escrevi e o que não escrevi. Falei de Kamikaze em outro texto, mas ali acabei deixando de fora uma sensação: quando a obra acaba, o público é recebido no foyer do teatro por um pequeno altar para o avô de Homero. E lá está a foto, fagulha primeira de todo o trabalho. Na hora, isso me frustrou. Kamikaze é sobre fabular, é sobre o que habita uma imagem para além do que ela comunica diretamente; e lá está a foto, materializando uma imagem única, ainda que ressignificada pelo que se assistiu. Ao longo do espetáculo, em vários momentos me peguei pensando como era interessante que essa fotografia fosse apenas descrita e de algum modo recriada pelo intérprete na cena; e cada pessoa poderia sair dali com a sua própria fabulação. A presença da fotografia, do altar, é significativa e importante; por outro lado, também corre o risco de encerrar alguns sentidos.

Kamikaze. foto: Vivian Gradela
Kamikaze. foto: Vivian Gradela

36. Sobre o que chega atrasado, me peguei repensando Estou bem aqui e lembrei de você. A fala de artistas do Em Bando Coletivo no Boteco Crítico, sobre não alterar a dramaturgia e sim encontrar o percurso a cada nova cidade. É como se não fosse sobre adaptar o trabalho para cada local, mas fazer da própria caminhada a descoberta. É como se a dramaturgia em áudio pudesse ser ouvida em qualquer lugar, um disparador para outras formas de habitar a cidade o tempo. Um convite para se atentar ao que está ao redor, seja lá o que for. Todo chão tem história.

37. Sobre o que chega atrasado, vi Rastro na mesma Praça Rui Barbosa onde nos reunimos para Estou bem aqui e lembrei de você. As mudanças climáticas fizeram com que houvesse uma tenda onde antes o sol iluminava, e o trabalho aqui constrói uma relação totalmente outra com o espaço público. Inicialmente, composições entre as artistas; corpos que ganhavam alturas, carregavam e eram carregados, olhavam ou repousavam. Depois, a cidade começava a estar presente: a escadaria do Shopping Praça, o segurança que saiu do enquadramento e uma pessoa curiosa na marquise acima, fotografando. Talvez Rastro ganhasse em força ao reconhecer as diferentes dimensões de um pequeno coro que dança e cada elemento que se coloca, inevitavelmente, em diálogo. Um banco é um banco, um poste é um poste, uma fonte seca é uma fonte seca; um coro de espectadores é um coro de espectadores. As coisas têm funções, não apenas formas. Lidar com as matérias pelo que elas são e o que representam neste ser, nesta composição caótica que é uma cidade, que é um chão com história. Composições, partículas coreográficas, palavras: Rastro parece demasiado limpo para o que se pretende, tudo muito certo, tudo muito sob controle, palavras que buscam evocar, manifestos que acabam por resultar em declamações quase ingênuas; há como que seis trabalhos em um, desejos vários do que dizer com gestos corpos composições e vozes que se espalham pela paisagem como as intérpretes ao final. A cidade é muito.

Rastro. foto: Milena Aurea
Rastro. foto: Milena Aurea

38. Sobre o que chega atrasado, não falei de Os Orixás. Pretendia, mas acabei saindo antes do final da obra. Isso chama a atenção para algo importante em uma programação tão intensa: é fundamental que as informações sobre a duração dos trabalhos seja a mais precisa possível – evidente que se pode compreender que em apresentações das artes vivas haja uma variação inerente ao dia e a diversas intercorrências, positivas ou negativas, então há sempre uma margem. Ali, no entanto, conversando com outras pessoas que assistiram, notei que saí bem antes do final, e já se passavam mais de quinze minutos além dos 55 indicados na programação. De todo modo, pude contemplar essa obra que é quase uma meditação em torno da cosmogonia do candomblé, feita com aguda precisão na manipulação das formas animadas, que parecem mesmo vivos, imensos, em diálogo com a projeção. Fredda Amorim falou mais sobre Os Orixás em um de seus textos; ressalto aqui a fundamental renovação nas vozes, agora negras, que narram. Entre tantas pessoas incríveis, escutar Ogun na voz de Djonga não estava entre minhas expectativas deste FIT.

39. Expectativas, contextos, desavisados: em outros textos comecei a esboçar essa ideia de público desavisado, para além do espontâneo. Na MIT Lambe-Lambe era comum ver passantes curiosos que paravam para ver os miniteatrinhos. Em obras feitas pela cidade, também. Chegar em um lugar e permanecer, mesmo incerto do que está acontecendo. Durante a abertura de processo Conexões - “Entre Processos e Cenas: o Ofício Artístico”, em um dos momentos de bate-papo, um senhor que chegou atrasado e perdeu a apresentação inicial, onde a ação foi contextualizada, perguntou quais daquelas e daqueles artistas são profissionais. Se a questão em si fazia sentido, a sequência deu a ver o desaviso: diante de grupos de Encenação, projeto dos Núcleos de Artes Cênicas do SESI SP, queria saber se algum deles estava em cartaz em um trabalho que viu no Teatro do Sesi no Centro Cultural FIESP, em São Paulo – uma obra que achou “muito longa”, e que “não entendeu nada”. Era Avenida Paulista, de Felipe Hirsch.

40. Desavisados, interessados, ávidos: na segunda-feira, vinte de julho, quando a Mostra Internacional de Teatro Lambe-Lambe ocupou uma passarela entre a agitada rodoviária e uma tranquila praça, muitas pessoas que por ali passavam perguntavam o que estava acontecendo; algumas, entravam nas filas de cada caixa. Outras, sabiam exatamente o que estavam fazendo ali – era mais um dia de FIT, e desconhecidas se tornavam amigas nas trocas de impressões entre o já assistido e as possibilidades por vir. Sugestões de obras, comentários sobre as caixas, conversas animadas de uma cidade feita pouso de tanta arte.

filas diante das caixas da MIT Lambe-Lambe. foto: Vivian Gradela
filas diante das caixas da MIT Lambe-Lambe. foto: Vivian Gradela

41. A comunidade interessada se organiza. Ao final do primeiro Boteco Crítico, me mostraram a existência de um grupo de WhatsApp para troca de ingressos. Sessões se esgotaram quase que imediatamente quando a distribuição começou, e lá estavam mais de 200 pessoas procurando e oferecendo suas entradas sobressalentes.

42. A gratuidade total é premissa interessante; sempre há pontos a se observar, se discutir. Falamos disso no primeiro Boteco Crítico. Sobre quem retira ingressos e não vai, deixando lugares vazios, e a angústia que isso dá sabendo que pessoas deixaram de ir por uma informação de sessão esgotada. Sobre o imaginário em torno do valor da produção artística que por vezes é de difícil compreensão para pessoas mais distantes do setor cultural. Sobre formas, jeitos, caminhos de ampliar o acesso, de garantir a democratização de acesso – pois não se trata apenas da gratuidade, há muitas coisas que circundam; custos de transporte, acesso às informações, acesso à internet, enfim. O FIT, nesse sentido, vê em seu tremendo sucesso um bom problema: as salas estão enchendo; quem está nelas?

43. Do lado de fora das apresentações, as filas da esperança se tornam eventos em si na programação do festival. Informações desencontradas, ânimos acalorados e uma gestão não ideal de situações levaram à polêmicas e frustrações nessa edição. É uma relação meio complicada, essa: a iniciativa é espontânea, mas ganha contornos institucionais na sua lida, e nessa fricção habitam potências e riscos.

44. Também habita imagens bonitas. Aqui, um registro de Ricardo Boni do momento em que a produção do FIT pedia que as pessoas ao lado de lugares vagos sinalizassem para a contagem que permitiria a entrada de quem estava na fila da esperança:

foto: Ricardo Boni
foto: Ricardo Boni

45. Sensibilidade mútua entre quem faz o festival e quem frequenta o festival – que é, no fundo, quem faz o festival. Praticar a escuta, trabalhar uma comunicação generosa e respeitosa. Construir parcerias, ir além de rivalidades, picuinhas. Abrir espaço. Entender o que é possível, a cada edição, e almejar um pouquinho além disso. Saber que não se pode dar conta de tudo; estar atento ao que escapa.

46. No último Boteco Crítico, uma pessoa queer comentou sobre a ausência de obras com perspectivas LGBTQIAPN+. A própria curadoria falou disso na mesa que debatia suas escolhas; que foi uma falta sentida, e por isso o pensamento em torno da ação formativa Protagonismo LGBTQIAPN+ nos Palcos, mais longa, com a apresentação de cenas. Talvez seja pouco, mas foi o possível diante do quadro que foi desenhado. É um desafio estarmos atentes às tantas questões que se acumulam em urgências.

47. Não estive presente nesta mesa de discussão; pude acompanhar as que trataram da curadoria, de teatro negro, de acessibilidade nas artes e de teatro para as infâncias. As atividades formativas de festivais são sempre possibilidades riquíssimas de troca e muitas vezes, no seu caminhar paralelo, acabam tendo menos destaque nas divulgações e menos procura – também por muitas se realizarem em horário comercial durante a semana. É compreensível e recorrente esse desbalanço entre o interesse em obras e nos debates. É também uma pena, pois nelas se pode debater profundamente inclusive o que está e não está presente na programação de um festival.

48. Diálogos sobre Teatro Negro foi uma verdadeira aula-magna, com Lucélia Sérgio, Onisajé e Jé Oliveira trazendo conhecimentos de altíssimo nível, entre história(s) e fazeres contemporâneos. Do Teatro Experimental do Negro até a programação do FIT, a troca entre os três artistas – fundamentais para pensar o teatro brasileiro – foi um momento histórico desta edição; infelizmente, com pouca adesão de público para ouvir. Com diversas obras de teatros negros na programação, foi um FIT rico pra nós, brancos, escutarmos, aprendermos e, sobretudo, prestigiarmos éticas e estéticas postas em cena.

49. O Teatro para as Infâncias do século XXI trouxe a visão de fazedores e da crítica que acompanha o fazer – Dib Carneiro Neto falou das transformações que percebe ao longo de décadas de trabalho dedicado a este teatro. Algo ficou em mim entre os apontamentos sobre a alma poética das crianças, com quem é possível falar de tudo de tantos jeitos, e as sistematizações e expectativas institucionais sobre o que e como se fala. E o tempo. O tempo da criança, o tempo do mundo, o tempo do teatro.

50. Acessibilidade nas Artes: Desafios e Possibilidades foi espaço para louvar o que há – um FIT com programação totalmente inclusiva, e que não se dê nenhum passo para trás, apenas adiante! – mas também apontar para as faltas. A mesa de discussão não trouxe artistas DEF em sua composição, e no público aparentemente também não havia pessoas com deficiência. Como impulsionar e garantir essas presenças em todos os espaços do festival, para muito além de cumprir tabela? Foi bonito ver o público surdo tendo seu direito à Libras garantido, assim como pessoas cegas e de baixa visão com acesso à audiodescrição. É disso pra mais – tem que ser.

público utilizando fones para audiodescrição em apresentação de Os Orixás. foto: Ricardo Boni
público utilizando fones para audiodescrição em apresentação de Os Orixás. foto: Ricardo Boni

51. Um dos gentis e prestativos motoristas de van que nos atendeu ao longo do festival, Pedro, em uma conversa enquanto aguardávamos para sair, comentou que trabalha para o FIT há muitos anos, assim percebendo as variações de cada edição. Perguntei pra ele como era acompanhar grupos de artistas e demais profissionais da cultura numa logística fundamental para a engrenagem rodar. Ele me disse “não somos a prancha, mas somos a onda”.

52. Da programação, perdi Onã, Ciranda de Bonecos, El Carnaval de los Animales e Republikkk ou Encruzilhada não é Beco, além de parte das caixas da Mostra Lambe-Lambe. Outras obras, como A maravilhosa princesa das bolinhas, (Um) Ensaio sobre a Cegueira, Para Mariela e Pai Contra Mãe ou Você está me ouvindo?, assisti em outros contextos, e pude acompanhar emocionadas repercussões ao longo dos dias. Uma dramaturgia possível para a paisagem curatorial que desenhei deste FIT passa pela percepção do teatro como potencial refundador de mundos, mitos, países e subjetividades.

53. Uma dramaturgia possível para a paisagem curatorial que desenhei deste FIT passa também, pelo resgate e registro histórico do que sustenta nossos tempos, nos piores e melhores sentidos.

54. Uma dramaturgia possível para a paisagem curatorial que desenhei deste FIT deixa comigo uma sensação amarga de que, talvez, restou aos artistas a função de arautos das catástrofes, anunciadores de distopias; tantas vezes, tantas obras, que existem como proposições reativas, não agentes, dos horrores que nos cercam. Mesmo assim, trabalhos que acordam as almas para contextos por vezes ocultos, sutis, apagados.

55. Só estive na palestra inaugural do Seminário FIT 2027: Uma Construção Coletiva. Espero que as outras ações tenham sido de bons debates, que mais pessoas puderam estar perto nessas rodas de pensar. Fátima Martins encerrou sua fala inicial com uma pergunta: para o FIT 2027, o que é possível? Construir, coletivamente, as bases do que se deseja para sentar nas mesas de negociações necessárias. Sonhar além, pedir muito mais, para que assim o que se concretizar o faça tensionando a corda do impossível.

56. A filósofa Hannah Arendt, em Entre o Passado e o Futuro, chega a uma definição muito bonita do que é um milagre: uma improbabilidade estatística. O Festival Internacional de Rio Preto chegar ao quinquagésimo sétimo ano de realização é um milagre. A cada ano, será mais uma vez um milagre. O cenário para os festivais de artes cênicas no Brasil não é o mais favorável – e quando foi fácil? – mas cá estamos nós, diante dessa imensidão que é o FIT, com suas falhas, seus campos que precisam ser mais observados, mas fundamentalmente cumprindo seu papel de fazer de São José do Rio Preto, por dez dias, pouso de obras que figuram entre as mais interessantes no contexto da produção local, regional, nacional e internacional.

57. Você, que leu até aqui. Que coisas leva? Que coisas deixa? Que coisas ficam, que coisas vão? Um festival é muita coisa. Cinquenta e sete anos são muitas mais. O que se acumula entre edições? Que memórias se cruzam, anos se confundem, obras se misturam? A última coisa que levo do FIT são as pessoas que encontrei pelo caminho. As pessoas que me leram; as pessoas que eu nem sei que me leram. Quem sabe nos vemos por aí. Quem sabe nos vemos no FIT 2027. Ele estará lá, esperando por nós, como o milagre que é.

eu, amilton de azevedo, ao lado de Fernando Pivotto e Fredda Amorim no brinde inicial de nosso primeiro Boteco Crítico. foto: Milena Aurea
eu, amilton de azevedo, ao lado de Fernando Pivotto e Fredda Amorim no brinde inicial de nosso primeiro Boteco Crítico. foto: Milena Aurea